sexta-feira, janeiro 18, 2013

Hermético holístico

O que seria literatura? Sabino tem uma resposta, e ela não compreende a livre criação. Talvez o ponto fosse qualidade. Mas quem somos nós para julgar? O bom, o belo... Na literatura, afirmo eu que pensar arte é pensar a inquietação do ser. Sabino disse não ser ninguém para fazer tal juízo de valor. Foi até humilde. Na época, 1989, exibia-se um Roda Viva com o autor brasileiro e a discussão chegou à temática dos originais recebidos por Fernando.

Aguça-me e também incomoda pensar a literatura como uma construção rebuscada da experiência. A transformação da vida em ficção. Amores, apelos, desilusões não podem ser pilares da criação? Precisa-se justificar, realmente, a arte? Falamos do quê? De estilo? Escrever bem, contar uma boa história faz disso literatura na opinião da maioria. Não sei, não sei até onde...

Muito mais do que belas palavras e histórias amarradas, literatura pra mim é essência, algo de semiautobigorafia. Entrega-se o autor no papel. É ele um pouco de narrador, personagens, lugares, ações, rimas, estrofes... Arte transforma realidade em reflexão de si, fortalece a auto-identidade.

Tudo bem, fica mais complicado ler algo "mal escrito", mas porquê não considerar isso uma obra prima? Porque se faz necessário comparar, hierarquizar, escolher e fazer História. Literatos precisam se separar do contingente; são únicos, importantes intelectuais. Manter aí todo o status quo do conhecimento faz jus ao esforço.

Contradigo o tom. Literatura não é hermética, nem pode ser! Quem tem nas mãos o poder de construir o conhecimento acerca dela faz do conceito algo universalmente bem posicionado no tecido artístico. Se Dona Carochinha decidisse fazer literatura, ela precisaria superar toda a linguagem a que teve acesso porque houve um Dostoievski, houve um Machado de Assis. Tudo isso pelo reconhecimento, para que digam: "Dona Carochinha é escritora; faz literatura. Ela é sensacional!"

Hão de se catar. As pinceladas da alma alcançam qualquer forma de expressão. E não há almas melhores que outras, apenas expressões mais desenroladas, assimiláveis, convencionadas. Quero ver a literatura em essência, como algo que não precisa de socialização para ser arte.

Drummond entendeu e já dizia: escreva quando não puder fazer outra coisa. É um recurso final para apaziguar os conflitos de ser, não ser, querer ser, deixar de ser. Aos prêmios, críticos e afins relega-se a avaliação falha, cheia de preconceitos e comparação. Afasta-te disso e faça-se a arte! ;D

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