quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Enfermo

Pelas veias corriam o ódio e o desentendimento. Aliás, um ódio triplicado. Se havia coisa mais incôlume era a maldita doença. Estava cedo quando as visitas ao sepulcro começaram via intestino. Chorava-se lágrimas inadiáveis, desesperadas, inúteis. Os gritos silenciados eram piores.

Um esforço de tirar os pés da cama ganhou enfim a rua indiferente. Homens, crianças, senhoras. Todos passavam em significado algum. Morte, desmaio, urros. Eram apenas essas as chances de chamá-las a atenção. Mas o que queria? Alguém a interromper uma rotina em maratona? Haha, faça-me rir, faça-me mesmo.

Melhores eram os conhecidos, a perguntar forçosamente se tudo bem ia, quando interesse ali inexistia. A resposta aos mais íntimos foi o risco: "Não, mas nada demais... não quero falar sobre isso". À coletânea de problemas alheios não queria acrescentar os seus. Alguns desavisados pediam risos costumeiros de uma boca agora pálida. Os dentes de pouca vida se anunciavam assim, discretos, como na tentativa de acalmar curiosidade.

Aos menos, até desimportantes, resposta nenhuma caberia, senão a confirmação do mau bem-estar. Odioso em cada centímetro do corpo, o farfalhar de bocas falsas pedia um pause. Noutro ritmo, olhos detidos ao chão, num silêncio grotesco, caminhou cambaleante ao destino dos desinteresses. As dores lhes foram reservadas em solidão. Disso dúvida alguma intrigava. Era o estupro cotidiano de consciência.

Verbetes internos clamavam a resistência até o fim do dia, indiferente como essas pessoas que não existem. Existir é demais para elas, porque existir instinte. E sentir não é simples demonstração. Apenas o eu é capaz disso, sozinho em sua própria escuridão.

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