sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Fim da linha

Acabou, mas o ser humano gosta de remoer. Saudade, saudade, saudade. O aperto indescritível dos pesadelos quando da perda de alguém se concretizam numa realidade irreal. Amigos, família, qualquer um pode ser o próximo da fila.

Se é de surpresa, ainda pior. A narrativa inacabada dá ideia de rapto, sequestro, latrocínio ceifador.

Tecla os números angustiada. "Isso não pode estar acontecendo", pensou. Nem sinal. Aquela voz ecoava na cabeça ainda sonolenta, pega de supetão numa madrugada fria e tranquila.

- Preciso ir atrás deles! - Disse desesperada ao espelho em choque com o reflexo pálido.

Não era costume ser tão imprudente no trânsito como naquela noite. Bateu o carro, empurrou pessoas, gritou por ajuda, o desespero tomou conta.

- Acalme-se, minha senhora. Não podemos mais fazer nada. - Tentou consolar o policial mais próximo.

- NÃO. NÃO! EU POSSO, EU TEnho... - Apagou ali mesmo, os vultos tomavam sombra sobre os olhos desmaiados, ainda que conseguisse ouvir a zoada da ambulância, ainda que conseguisse sentir o toque das mãos médicas. Ela não estava mais ali fisicamente, não como fora um dia.

No auge da vida eram cinco pedaços, mas um resolveu dar adeus antes que o barco afundasse. O marido não existia mais para dividir o impacto. Ela acordou, olhou para os lados. Ali estavam, muitos dos que amava, que cultivara por tanto tempo. Amigos chorosos, pais como ela, aliás padrinhos, tios de consideração das crianças. As crianças...

-Meu Deus, preciso buscar minhas crianças na escola - alucinada, ela não desistia.

- Não há ma... - começou o mais corajoso dos amigos, desistiu.

- Eu sei, está faltando algo desde ontem.  - a consciência velada contradizia, agora, os atos tresloucados. Acabava o choro.

 - Faltam as três partes, elas me abandonaram noite passada. O que sobrou não vai durar muito.

Enterrar aqueles três na tarde escaldante foi um fardo pior do que o fim. Nem acabar ela podia mais. 

Uma homenagem aos pais dos amigos que nunca tive e se despediram agressivamente deste mundo em 27 de janeiro de 2013. Eu também tinha 21 anos, também era universitário, também ia para a balada. Mas não fui eu. Foram outros sonhos. Meu chão, porém, também se despediu de mim. A linha aguarda traços incertos e um dia ela muda de natureza. Até lá.



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