domingo, abril 21, 2013

Cigarette

Ao fim da noite sobrou o maço que não acabei. Minhas entranhas exalavam cheiro vil de ócio sem ofícios. Impregnado de cinzas, saí da festa sem pulmões, sem roupas, sem cabelos. Tudo fumaça. Nem mesmo o ar me era natural. Esse ócio tinha preço e era daqueles cujo alto valor o dia seguinte cobrava sem dó.

A tontura se acumulou em cada tragada, quando eu quase tombara em mim mesmo. Movimentos de corpo solto, rodopios em sapatilha desgastada, se perdiam na noite, encaminhados pela fumaça que rumava às estrelas. A bebida não fora suficiente para reduzir os sentidos. O cigarro tinha de ser letal.

Entrei no carro, estava frio demais para abrir as janelas. Ali companhia era ela, fumaça dissolvida em carne. Puxava o ar na esperança de sentir outra coisa, nada. Só me restava o reduto do cigarro apagado. Quando enfim abri a porta de casa, trazia um rastro fantasmagórico, de aroma incandescente a denunciar minhas más intenções. Pilhas e mais pilhas de obrigações acumuladas na mochila e nos livros fechados acusavam-me da denúncia olfativa. Aquela noite não era para ter sido. Ou era?

A cama, meu esconderijo... nem ela desejava me ter. Parecia repelir meu sono, acusando-me da fumaça insidiosa. Naquela noite, o chuveiro me recebeu sem preconceitos. Talvez unicamente pela esperança de exorcizar, esfregar da carne aquele maldito vestígio de pecado aceso. Um pegado não consumado em alguém, apenas pecado de fumaça, palavras poucas e corpo em movimento.

Passando pelos azulejos encardidos, um rastro d'água encaminhou para o ralo os vestígios mais íntimos, restos de mim e a fumaça. Enxuto, fui ter com a cama o meu ingênuo instante de desculpas. Dessa vez ela não percebeu a infame prova do prazer e do ócio. Esgotei-me nos travesseiros e, escondidos nos lençóis, pude finalmente fechar os olhos aliviado. Eram seis da manhã, aquela noite acabou.

Muito pouco, porém, foi o que durou a redenção. De olhos fechados, as narinas continuavam a denunciar o pecado. Até que o sono me arrebatasse, pude sentir o cheiro inesgotável da fumaça, bruto, dentro de mim.

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