Mas a saudade bate mesmo dos tempos em que essa pessoa era
ainda mais assídua, e todos os dias corriam com a presença dela na casa do
bucólico Cohatrac. Lembro-me bem do fusquinha bege e de uma roupa, aquele
conjunto listrado em cores amarela, azul e lilás. Pequenos detalhes materiais
que marcariam meus cinco primeiros anos de idade, em seguida minha vida
inteira. Foi antes de partir a primeira vez para morar sozinha. Nas visitas ao Parque
Shalom, olhávamos o branco prédio da Jacaúna. Dava até para sentir um gostinho
de praia.
Ela não precisava ter distribuído amor, não precisava de
sacrifícios, ninguém a obrigou, intimou. Estava pensando na família, em
amores insubstituíveis e num futuro que ninguém queria ou ainda poderia ver.
Foi assim comigo, acho que com todo mundo que conquistou. O negócio é que ela
ama muito e até nisso é humilde, porque não falam as palavras, falam as
ações e, claro, as poucas vezes em que deixa escapar o essencial.
Cores e silêncios que saem de alma tão amiga, mãe, irmã, filha.
Conheci-a em 1992, logo que cheguei ao mundo. Mas mamãe
teimava em dizer que ela já me conhecia antes, talvez em 1991. “Hortência, me
dá ele, que eu crio”, até hoje mamãe conta rindo-se perplexa do pedido e se
emociona. Não é qualquer um capaz de fazer um pedido desses. Hortência não me
entregou, mas dividiu, e logo ganhei mais uma mãe. Esta me ensinou a chamá-la
de dindinha. Nunca mais desenvolvi na
cabeça palavra tão carinhosa e pueril, ainda que na época mal entendesse a
expressão por completo.
Foi dindinha que me ensinou a correr atrás dos meus sonhos,
a lutar como ela, a ser gente como tanta gente que conheci pelos meus
descaminhos. E, por mais que errasse ou tivesse medo, era ela uma das poucas a
me encorajar. Sabia que, ainda que o mundo se virasse contra mim, não teria
apenas mamãe ao meu lado. Dindinha também me ensinou a amar, a não mentir e, quem diria, a ser doido de vez em quando.
Muito da segurança e conforto que vi naqueles pequenos olhos
castanhos e longos cabelos negros estavam nas brincadeiras, naquilo que ela
chamava de veneta. “E esses peitos, a senhora quer mostrar pra quem?”, dizia
quando avistava vovó nua na lavanderia. Dessa veneta eu tirei os cheiros, as
cosquinhas, aprendi a cerrar os dentes quando algo me desagradava. Dindinha,
com a senhora eu aprendi a gargalhar e !atentar! a vida alheia. Também
aprendi a chorar.
Muitas vezes Marília esteve de partida. Algumas, tamanho meu
apego na pirralhice, eram feitas às escondidas. Quando eu descobria, ficava
berrando feito bobo. Hoje é engraçado rememorar isso, porque até nas fugas o
sorriso ficava estampado na boca dela. E eu tive de aprender a me despedir.
Algumas vezes foram horas, dias... agora, meses.
“Lubélia, não
acredito, pode ir escovar esses dentes que tua boca tá F-E-D-E-N-D-O”
“Ai, Marília, mas tu é chata, hein? Creeedo!”
Dindinha foi uma palavra diferente que eu aprendi a usar
para chamar de mãe alguém que me amou tanto como filho. E são tantas memórias e
saudades que eu nem consigo mais escrever. Com Marília encontrei meus lugares
preferidos da infância, mais uma irmã com quem dividir a velhice e a coragem
incerta para sair de casa.
Feliz aniversário, dindinha!
Nascida no mês das mães, ela foi predestinada no batismo. Marília é forma poética de Maria. 4 de maio de 1967


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