sábado, maio 04, 2013

Dindinha

“Geeeente! Mamãe, o que é isso, senhora? Vá trocar de vestido agora, que eu tô mandando”. E as duas riam, tanto a que mandava como a que obedecia. Era uma daquelas visitas rápidas na hora do almoço e uma das corriqueiras frases para a mãe. Como sinto falta dessa reunião rápida, por vezes até cansada dos afazeres do dia. Não havia vez sem risos ou doidices. A única que tinha a loucura e, especialmente, a sorte de poder dizer o que quisesse à mãe. Isso porque a velha não dava um ai, pelo menos não na frente dela.

Mas a saudade bate mesmo dos tempos em que essa pessoa era ainda mais assídua, e todos os dias corriam com a presença dela na casa do bucólico Cohatrac. Lembro-me bem do fusquinha bege e de uma roupa, aquele conjunto listrado em cores amarela, azul e lilás. Pequenos detalhes materiais que marcariam meus cinco primeiros anos de idade, em seguida minha vida inteira. Foi antes de partir a primeira vez para morar sozinha. Nas visitas ao Parque Shalom, olhávamos o branco prédio da Jacaúna. Dava até para sentir um gostinho de praia.


Ela não precisava ter distribuído amor, não precisava de sacrifícios, ninguém a obrigou, intimou. Estava pensando na família, em amores insubstituíveis e num futuro que ninguém queria ou ainda poderia ver. Foi assim comigo, acho que com todo mundo que conquistou. O negócio é que ela ama muito e até nisso é humilde, porque não falam as palavras, falam as ações e, claro, as poucas vezes em que deixa escapar o essencial. Cores e silêncios que saem de alma tão amiga, mãe, irmã, filha.

Conheci-a em 1992, logo que cheguei ao mundo. Mas mamãe teimava em dizer que ela já me conhecia antes, talvez em 1991. “Hortência, me dá ele, que eu crio”, até hoje mamãe conta rindo-se perplexa do pedido e se emociona. Não é qualquer um capaz de fazer um pedido desses. Hortência não me entregou, mas dividiu, e logo ganhei mais uma mãe. Esta me ensinou a chamá-la de dindinha. Nunca mais desenvolvi na cabeça palavra tão carinhosa e pueril, ainda que na época mal entendesse a expressão por completo.

Foi dindinha que me ensinou a correr atrás dos meus sonhos, a lutar como ela, a ser gente como tanta gente que conheci pelos meus descaminhos. E, por mais que errasse ou tivesse medo, era ela uma das poucas a me encorajar. Sabia que, ainda que o mundo se virasse contra mim, não teria apenas mamãe ao meu lado. Dindinha também me ensinou a amar, a não mentir e, quem diria, a ser doido de vez em quando.

Muito da segurança e conforto que vi naqueles pequenos olhos castanhos e longos cabelos negros estavam nas brincadeiras, naquilo que ela chamava de veneta. “E esses peitos, a senhora quer mostrar pra quem?”, dizia quando avistava vovó nua na lavanderia. Dessa veneta eu tirei os cheiros, as cosquinhas, aprendi a cerrar os dentes quando algo me desagradava. Dindinha, com a senhora eu aprendi a gargalhar e !atentar! a vida alheia. Também aprendi a chorar.

Muitas vezes Marília esteve de partida. Algumas, tamanho meu apego na pirralhice, eram feitas às escondidas. Quando eu descobria, ficava berrando feito bobo. Hoje é engraçado rememorar isso, porque até nas fugas o sorriso ficava estampado na boca dela. E eu tive de aprender a me despedir. Algumas vezes foram horas, dias... agora, meses.

“Lubélia, não acredito, pode ir escovar esses dentes que tua boca tá F-E-D-E-N-D-O”

“Ai, Marília, mas tu é chata, hein? Creeedo!”

Dindinha foi uma palavra diferente que eu aprendi a usar para chamar de mãe alguém que me amou tanto como filho. E são tantas memórias e saudades que eu nem consigo mais escrever. Com Marília encontrei meus lugares preferidos da infância, mais uma irmã com quem dividir a velhice e a coragem incerta para sair de casa.

Feliz aniversário, dindinha!


Nascida no mês das mães, ela foi predestinada no batismo. Marília é forma poética de Maria. 4 de maio de 1967 

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