Expostas pelas páginas de internet, em publicações de amigos e conhecidos. Falam todos palavras vazias de si mesmos. Garantem em declarações amorosas e esganiçadas o acesso à intimidade mais íntima, se é que isso é possível. Problemas, reflexões, rotina, qualquer coisa pode virar assunto na web. Quanto mais vitrine for a vida do outro, mais reconhecido por mim ele será.
Mas não se engane, a vitrine é fosca. Estamos o tempo inteiro selecionando o melhor de nós para levar aos outros. Assim com sempre fizemos em relacionamentos, agora fazemos na internet. A diferença é que, antes, ninguém tinha a ilusão de acesso ao íntimo. As redes sociais reverteram essa certeza.
Vemos a cada minuto publicações sobre comida, viagens, quartos, pensamentos, músicas, literatura, etc. Estão expostos os gostos, as histórias de vida e as opiniões (aliás, opiniões sobre tudo e sobre todos, sempre há). Os interesses convergem quando comentamos, curtimos e nos envolvemos. E como nos envolvemos.
As fotografias, os pensamentos e os gostos nos dão acesso à personalidade e, mais, à privacidade alheia. Temos a certeza de que o outro nos é familiar, reconhecível. Passamos, então, a conhecer e a nos comunicar por meio de uma tela quadrada e iluminada. Assegurando ali os contatos mais profundos com a alteridade. O outro vira a tela do computador.
Engano amargo. Nossa intimidade revelada na web é o disfarce mais fajuto dos últimos dois séculos. Estamos brincando de esconde-esconde com nós mesmos. Geramos novas identidades no jogo cibernético da vida, somos várias pessoas ao mesmo tempo que nada, nem ninguém.
Aquele que se estende ao mundo virtual por meio das teclas de computador continua mostrando o que lhe é conveniente. E agora pode dissimular muito mais, pois as provas de si mesmo são escassas e estão a quilômetros de distância de quem as desconhece. Então brincamos de forjar o íntimo, aquilo que queremos que pensem de nós.
Mal ou bem, saímos da esfera do contato privado, dentro de casa, nas ruas, com os amigos, para a esfera da extimidade. A nossa intimidade falsamente se exibe, tornando-se o que quisermos que ela seja. E assim se mantém a vida na web, assegurada nas histórias fajutas de pessoas que não existem.
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