terça-feira, dezembro 24, 2013

Véspera

(data da publicação alterada)

Na expectativa da grande reunião, escondeu de si o maior dos seus presentes. Sem as lantejoulas de sempre, jazia empoeirado sob um pinheiro velho, pouco festivo. Um pinheiro abandonado na despensa da grande casa.

A inegável dor de guardá-lo mais uma vez trouxe motivos de dias ainda vindouros. Já não podia com aquilo.

Tinha desejos simples. Queria encontros mais calorosos, verdadeiros. E isso Papai Noel tinha lhe negado nos últimos jantares de muitos talheres e vozes.

Talvez fosse apenas bobagem de garoto pensar que aquela ceia repetiria os temerários desgostos de outrora.

O silêncio hipócrita que carregara consigo durante tantos anos não aguentaria esperar para ver, porém. Aquele lugar não era dele e ele não era daquele lugar. Enfim entenderiam a melancolia inexplicável de seu costumeiro e cabisbaixo olhar na véspera do Natal.

Com a chegada da noite, a casa foi ficando cheia. Teve de sair do quarto para cumprimentar parentes e amigos dos pais. Quando se viu sozinho, andou apressado até o corredor que dava para o quintal. Verificou se alguns dos tios e primos o observavam e, então, abriu o acesso da despensa.

O lugar, escuro e úmido, revelava o abandono da velha réplica de pinheiro, agora desmontada e encaixotada num canto abaixo das prateleiras abarrotadas de comida. Agachou-se para abrir a caixa empoeirada. Sentiu um breve aperto.

Enquanto tirava as peças da árvore, uma a uma, lágrimas caiam lentamente sobre as mãos agora sujas. Antes que terminasse, encontrou o pacote cinza que escondera dias antes.

Sempre que a véspera do Natal se aproximava, escondia ali na despensa, embrulhado num papel acinzentado. A tradição começara desde quando tinha sete anos e entendera que o Papai Noel não visitava árvores encaixotadas e empoeiradas. Os presentes, esses também dificilmente eram cinzas.

Agarrou o pacote com segurança. Os olhos meio perdidos absorviam uma decepção veemente no espaço vazio de luz e abarrotado de coisas. Já não suspeitava de que aquele Natal não era seu, muito menos do verdadeiro dono.

O embrulho pequeno cabia na palma direita da mão. Antes de fechar a porta e sair, colocou-o no bolso esquerdo da calça.

Voltou para a sala, onde estava grande parte dos convidados. A meia noite se aproximava a cada risada e tilintar de taças. O menino aguardava ansioso. Já não podia esconder suas pálidas feições.

- Você está bem, meu filho? Esse rostinho triste não me engana.
- Sim, mãe. Não se preocupe.

Esperou que os ébrios convidados se empolgassem cada vez mais para anunciar, antes do fim da véspera de Natal, os motivos de seu silêncio. As risadas agora eram mais longas. Grupos dispersos se dividiam entre conversas esganiçadas e cochichos.

Tirou o embrulho acinzentado do bolso e foi para o centro da sala. Estava de pé e, por um instante, todos se viraram para observá-lo. Começou, então, o que tinha de fazer:

- Tenho um aviso para vocês. Já faz alguns anos que não consigo entender o que se repete aqui, nesta sala, antes do Natal. Se esta era uma tentativa de reunir pessoas em torno de uma data especial, sinto dizer que foram abandonados por suas próprias motivações.

Respirou fundo e continuou. Agora apertava o embrulho com mais segurança.

- As palavras ditas e os olhares desavisados me mostraram a que realmente vieram. Vocês julgam uns aos outros, injuriam a vida dos que não podem se defender, reclamam de tudo, por mais benfeito que seja, e ainda têm coragem de distribuir sorrisinhos com os olhos arregalados!

Alguém entoou uma gargalhada assustada e foi repreendido pelos demais.

- Anunciam valores e iniciativas de um Papai Noel em que não acreditam. E, diria mais além, de um Natal que parece se esfacelar diante das falácias que ensinam a suas famílias e crianças!

Muitos, estupefatos, começaram a sair da sala. Olhavam-se descrentes uns para os outros, como se estivessem diante de um monstro desajustado. Ao fim, ficaram na sala apenas o garoto e seus pais apreensivos, num misto de ira e medo inexplicáveis.

Com as duas mãos, o menino, em silêncio, passou a desembrulhar o pacote. Não podia esconder a tristeza de revelar o valioso presente de seus natais silenciosos.

O cinza do papel deu lugar ao vermelho vivo. Agora podia encarar os pais com toda a verdade do mundo. Não havia mais embrulho, nem segredo. O líquido avermelhado pingava de sua mão direita, formando vagarosamente uma poça abaixo dos pés.

Sentia perder as forças. Ainda de olhos fixos nos pais, agora ambíguos e desesperados, conseguiu pronunciar poucas palavras:

- Na véspera, lembrem de cultivar o amor. Papais noéis não existem.

Assim que terminou, a visão turva não o deixava mais de pé. Caiu sobre a poça vermelha. O corpo parecia cinza, como o papel do embrulho. Da mão frouxa, cambaleou o presente. Ele também perdera a cor.

Muitas imagens se sucederam naquele instante. De volta à escuridão da despensa, o garoto desembrulhava mais uma vez a caixa da réplica de pinheiro. No fundo havia finalmente o que procurava. Era um embrulho humilde, verde como as folhas empoeiradas, onde se podia ler אהבה

(Ahava)  

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