quinta-feira, março 13, 2014

Podre

Às vezes tinha a impressão de que faltava bondade entre as escassas virtudes. Ao negar ajuda a qualquer, deixava tantos ao léu quanto possível fosse. E então encontrava um pouco de quem não aceitava ser.

Era escrava da própria sorte. E tinha nojo disso, relutava. Mas ali morava a fortaleza. Desejos concebidos no corpo frágil, derradeiro significado mundano.

A vida não ensinou, tratou de se virar sozinha. Devassada por dentro, se desfez dos antigos ideais, onde não sobrara quase nada, nada além do fluxo raivoso, vil e imperante. A maldade enquanto redenção nos simulacros da existência.

De uma coisa passou à certeza. Quando angústias emergirem de repente, abandonará mais e mais o papel de boazinha. Enterrada a  indefesa em mundo de bestas, vestirá uma túnica definitiva, de fera.

Ah, os olhares decepcionados...eles já nem importam. Sente apenas podridão, lugar-comum dos dias passantes. Lá se morre mais um pouco de morte suicida, vez a vez. Mar de remorsos aceitos.

Preferiu viver cheia de si, na calada podridão do universo.

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