Uma ilusão crível, como um balão que não pára de subir, não estoura. Mais do que partir enquanto se tem vontade ou fechar portas que de tão abertas ofuscam o caminho, existe a liberdade inconquistável. Ela jaz na carne.
E também na alma. Isso significa uma simples e dolorosa coisa. Estamos sempre onde não estamos. Queremos sempre o que não podemos, também o que não queremos. E aí o apego à insatisfação e ao movimento. Almas paradoxais, desconhecidas de si mesmas.
Vagamos, então. Impossível compreender a transitoriedade do desejo e a ditadura do livre arbírtrio. Humanos não podem abdicar da necessidade de escolher, entendemos a esmo.
Alguém disse que escolher contra a carne é um exercício de liberdade perante a natureza. Outro alguém falou o inverso: só somos livres enquanto animais, de volta ao estado natural. Ditos demais, feitos de menos.
Falamos muito e não explicamos nada. Estamos na coisa desconhecida, cheia de contrassensos, felicidades fulminantes e, claro, ilusões. Se entramos nela tão rapidamente, um dia saíremos com a mesma facilidade.
Um outro humano, de que gosto muito, falava dos castelos de areia. Já pensaram em quantos construímos por dia? Apegos e mais apegos. E depois a gente se desapega; à força. Na verdade parece uma grande brincadeira, essa peça que o universo nos prega num fluxo próprio, inacessível.
Dá até para sentir o milagre da vida e se pasmar com isso. Mas fingimos que não acontece. Ou então a gente se esquece. E se esquecer disso é o maior exercício de escravidão na brevidade.
Os finais são
todos os dias
os mesmos
finais
e começos
dos finais
já finados
insatisfeitos
angustiados
mentirosos
os trapos
vivos
ainda começam
a fingir
os fingimentos
os mesmos
que dos finais
não restam
nem tormentos
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