sábado, abril 05, 2014

Livre?

Uma ilusão crível, como um balão que não pára de subir, não estoura. Mais do que partir enquanto se tem vontade ou fechar portas que de tão abertas ofuscam o caminho, existe a liberdade inconquistável. Ela jaz na carne.

E também na alma. Isso significa uma simples e dolorosa coisa. Estamos sempre onde não estamos. Queremos sempre o que não podemos, também o que não queremos. E aí o apego à insatisfação e ao movimento. Almas paradoxais, desconhecidas de si mesmas.

Vagamos, então. Impossível compreender a transitoriedade do desejo e a ditadura do livre arbírtrio. Humanos não podem abdicar da necessidade de escolher, entendemos a esmo.

Alguém disse que escolher contra a carne é um exercício de liberdade perante a natureza. Outro alguém falou o inverso: só somos livres enquanto animais, de volta ao estado natural. Ditos demais, feitos de menos.

Falamos muito e não explicamos nada. Estamos na coisa desconhecida, cheia de contrassensos, felicidades fulminantes e, claro, ilusões. Se entramos nela tão rapidamente, um dia saíremos com a mesma facilidade.

Um outro humano, de que gosto muito, falava dos castelos de areia. Já pensaram em quantos construímos por dia? Apegos e mais apegos. E depois a gente se desapega; à força. Na verdade parece uma grande brincadeira, essa peça que o universo nos prega num fluxo próprio, inacessível.

Dá até para sentir o milagre da vida e se pasmar com isso. Mas fingimos que não acontece. Ou então a gente se esquece. E se esquecer disso é o maior exercício de escravidão na brevidade.


Os finais são
todos os dias
os mesmos
finais

e começos
dos finais
já finados

insatisfeitos
angustiados
mentirosos
os trapos

vivos
ainda começam
a fingir
os fingimentos

os mesmos
que dos finais
não restam
nem tormentos

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