- Alfazema!
A preferida desde criança. Ela procurou, olhou para os lados em busca do cheiro. Sorriram um para o outro, ele apontando para o esconderijo a esperava correr.
Correu ao pé e de joelhos arrancou o ramo mais vistoso. Alfazema se despediu do chão seco, laranja.
Já no carro, Alfazema balançava segura nos braços dela. Estava disposta a plantar em casa e conviver com aquelas flores por décadas, aproveitar para apresentar aos filhos que ainda não tinham nascido, quem sabe até netos, se estivesse viva até lá.
O sol se punha. E o carro, veloz, traçava no vento os raios da despedida. Os cabelos balançavam para fora da janela. Todos notavam a beleza de moça jovem e feliz, ele principalmente.
Chegaram em casa e ela correu. Os galhos de Alfazema rijos no busto ofegante. Os amigos ainda no carro, tirando as sacolas e mochilas de viagem. Dentro de casa, sozinha, ela se perguntava onde estava o jarro. Se tinha algum jarro.
Não tinha.
Saiu de casa e falou que ia ao mercado mais próximo. Deixou Alfazema em cima da mesa. Os meninos subiam as escadas cheios de mochilas. Ela, correndo de novo.
Estantes do supermercado não permitiam floriculturas. Ficou triste, imaginando se acharia algum vaso num lugar. E voltou, era tudo muito cinza e os vasos de asfalto.
Contentou-se rápido, talvez um pouco cansada do dia na cachoeira. Em casa, os meninos sentados, conversavam risonhos, acediam outras ervas. Alfazema na mesa ficou lá, alheia aos gargalhos.
Mais tarde, à noite, lembrou-se de Alfazema e pensou que amanhã teria um vaso. Dormiu logo em seguida. Sonhou com as plantas, que elas não morressem.
No dia seguinte, pegou o vaso na casa de uma amiga. Nele um musgo morto.
O prenúncio provocou-lhe a consciência. Assim que chegou, viu Alfazema murcha na mesa e cuidou de aprumá-la, espremida na terra. Apertou-a como quem apertava o coração arrependido.
A terra encharcada de tanta água. Regava Alfazema três ou quatro vezes por dia.
Dias indo e vindo, cheiro ainda forte, flores e folhas murchas. Em casa, ele chegava sempre tarde. Um dia avisou, como que saturado da ilusão:
- Não adianta, ela já morreu...
Deixou para lá, o insensível. Não se entregava fácil.
Semanas passavam e Alfazema era seca como o chão de onde veio. As folhas salpicavam o chão branco. À noite ela assentiu culpada. Jogou Alfazema fora.
- Minha preguiça...se tivesse pegado um vaso a tempo!
Foram dormir, dessa vez de conchinha, já que Alfazema não estava ali, nem os amigos do dia da cachoeira. Colados, sonharam juntos.
Ele via cabelos na janela do fusca e uma planta no peito de uma moça feliz.
Ela conversou com Alfazema, soube que as plantas morrem, vão para o céu.
Flor sem vaso
texto sem escrever
deixa pra depois
postergando histórias
como vidas
de Alfazema
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