Se a infância fosse descritível, não o faria a indecente Gardênia. Nas estratégias de sofrer o mínimo, inventou tantas paredes, todas invisíveis.
Em tardes de voleibol na escola, erros respondiam berros e xingamentos. Aprendeu a engolir seco, bebendo da indiferença ante o medo. Na escola das durezas masculinas, camuflou-se.
Logo ela não seria motivo de chacota (fraquezas só prestam se bem escondidas). Contava alguns poucos deslizes, como aquela aula de português ou redação, quando os colegas do grupo não fizeram o trabalho. Chorou em público, as professoras riram descrentes. - Pagar esse mico na sexta série do fundamental, Gardênia?
Voltou séria pra casa, mas preocupada com as notas depois do vexame. Nossa, notas eram motivo de esquizofrenia. Mas não era de estudar assim, loucamente. Tinha uma viciada relação com a TV, os animes e, claro, Chaves. Só gostava mais da rua, dizia a avó. No calor do momento era tão comunicativa, vários colegas, poucos amigos.
Entendeu cedo que algumas coisas não se contava à mãe. Resolvia na rua ou escondia de novo.
Parecia tão dona de si...Gardênia entre paredes. Mas não enxergavam as paredes. Cresceu então a pródiga criança, pau mandado pra qualquer obra.
Isso até o desatino, quando mais tarde virou louca varrida, fazendo da vida o que queria. E se chorar aos quatro ventos fosse bom, o problema era de quem? Às vezes se perguntava, inocente.
Nas paredes derrubadas, o mundo se assustou. E virou a puta, a vadia, a piranha, chamada escória. Foi no peito aberto que demoliu os prédios de falsa Gardênia, a domesticável filhinha de dia dos pais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário