sábado, novembro 05, 2016

rodas de um filme qualquer

minha bike anda por aí. destece fios em busca de acontecer

não se engane, a velocidade é mérito do desaparecimento.

sumir sem dar notícias, voltar rapidamente. um adeus prolongado em espasmos de presença.

talvez pudesse listar coisas surpreendentes de estar sobre duas rodas na rua. quem sabe seria falho, pareceria meloso ou meticuloso demais.

por isso sugiro a mim mesmo trazer as sensações. alguma coisa como reencontrar pessoas perdidas, cujos cotidianos já nem mais fazem parte dos hábitos que escolhi.

voltar à casa da infância. reviver imagens de um passado que poderia noutro futuro ser eu mesmo. talvez misturando-se comigo no presente, algo que fui e ainda sou, mesmo não sendo mais, jamais sendo.

nego qualquer possibilidade de ser. nego o que a minha bicicleta me traz como matéria. nem mesmo eu matéria, mais vento, menos chão. nego talvez para ver mais do que tocar, para sentir mais do que fazer. talvez o mundo aconteça enquanto minhas rodas não param. são as bobinas do meu filme.

e meu filme é meu corpo.

sugiro mesmo que daqui em diante talvez seja mais sincero e conte alguma falsa verdade.

todos os anos, quando volto a casa da minha vó, pego a mesma bicicleta e passo pela mesma rua, procurando a mesma casa.

há pouco mais de quatro anos foi nela que te vi. talvez despercebidamente, numa tentativa afogada de acontecimentos pela cidade.

por algum motivo, volto a ela atrás daqueles segundos que não me permiti tocar. quando faço isso, volto sempre distante, tocando bem menos, vendo muito mais.

a bike aguçou minha visão das coisas.

me fez ver mais pessoas desde então. e já não sei se volto à bike para te ver ou ver outras pessoas, outras coisas. sei apenas que a bike é o que me mantém longe de todos. perto de ti. perto de mim, da minha busca incessante por acontecimentos.

aquelas duas crianças saindo de perto da mulher, correndo felizes pela pracinha. levantando as pernas como costumo fazer bêbado por aí. a música do rádio tocando exaustivamente no meu rádio, me enchendo de adrenalina. vários colegas da escola, tão mais velhos e distantes, me reconhecendo em lampejos de velocidade. mal tive tempo para conversar.

mas hoje tomei coragem. algumas imagens se repetiram, outras tantas me surpreenderam. meu filme viu ascender à tentativa frustrada de descobrir-te. de fazer acontecer tão longe mesmo que morto. mesmo que eu morra. morra na história inventada.

talvez tu estejas em Curitiba, foi o que um senhor de idade me disse. alguns garotos daquela casa foram embora para Curitiba, ele disse.

o mesmo lugar para onde minha mãe fora anos antes. há 12 anos. esperei ela voltar. e voltou. eu tinha 12, agora 24. e a tua casa, na rua 32, de número indefinido, supus 42 contando as próximas.

tantos números repetidos, precisaria dar certo, tornar-se verdade matemática. 2 e 4.

mas se minhas contas são ilusões, São Luís seria a serpente do meu alto mar. baixo mar.

tão baixo e tão alto te procurar e escavar, colocar tantas expectativas em qualquer pessoa que nem conheço, na espera de que ela seja tudo aquilo que imaginei, mas ao contrário. porque se pudesse imaginar não teria graça nenhuma. mas talvez acontecer. isso, acontecimento, desaparição.

vejo meu filme, te vejo ir embora, vejo a casa abandonada.

o senhor me disse, são anos de abandono. deixar uma casa assim, por quê?

por que ir embora sem me conhecer? sem se despedir?

será que um olhar jamais nos poderia ser requisito de humanidade?

será que um olhar jamais me poderia fazer sentir saudade?

seria o olhar tudo o que não posso saber de verdade?

se não posso, ainda tento. descoberta imprescindível.

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