terça-feira, agosto 22, 2017

fugere

Lembra que Clarice Lispector se comunicava de uma maneira específica? É possível começar algo muito poético, sim. Talvez numa perspectiva de consciência quase inalcançável de outras maneiras. Não é apenas uma questão do uso de maconha, pois torna qualquer um suscetível a esse lugar de "alucinação". Entretanto, por conta desse uso, é possível abrir alguns caminhos, pensando estruturas, organizando fatos e deixando mais evidente na cara dessa sociedade, baseada no patriarcado e nas sucessões de mesmas famílias no poder, que muitas coisas mudaram. Ou que ainda precisam mudar, pois ontologicamente a condição assimilada com o humanismo tardio configurou formas e operações cotidianas que desvalorizam a existência enquanto atualidade para pensá-la como imanência. É provável que o pensamento consolidado pelo pós-estruturalismo da segunda metade do século XX tenha aberto algumas fissuras epistemológicas em nações de sistema federalista como o Brasil. O federal, então, nada mais do que o substrato defendido à pena de morte por machos que detêm ou assimilam e legitimam formas de poder sobre ela. Transformar a morte em tática ideológica é o primeiro caminho da guerra. Sabemos bem onde culmina. Ou será que não? Traçar aquedutos profundos mas instáveis talvez materializem a metáfora prometida por símbolos sisíficos e prometéicos. A humanidade carece de algum fardo para a própria sabedoria. E busca saber na indeterminação ou na inconstância possibilitada pela morte. Tal conhecimento impõe ao corpo, sobretudo ao corpo imerso na cultura, prever supostas ações que culminem nas intenções de matança, algo que os animais possuem em comum conosco, mas a memória humana é capaz de prolongar por tempo indeterminado - seja se configurando como conhecimento ancestral, passado por gerações e culturas há milênios/séculos, seja pela própria vida do indivíduo (que no plural dura apenas décadas) em sua curiosidade de prever o que acontecerá em seguida. A projeção humana, devido à morte, é capaz de replicar o passado no futuro simbolizando e reproduzindo um estado corporal provável e improvável simultaneamente. Ou seja, prevemos que coisas podem dar certo ou errado, com a ideia de possibilidades e impossibilidades, numa tentativa de controlar as probabilidades. Ai entrarei mais a fundo onde pretendo chegar. Ao prever probabilidades por via da abstração, não estamos fazendo nada mais nada menos do que contar, princípio matemático alicerçado numa condição hierarquizante do pensamento. Como a voz de Gilles Deleuze ecoando na performance  O que podemos dizer sobre Pierre , da artista portuguesa Vera Mantero: "Afinal, o que é mais importante?". Se há mais, concomitantemente há menos. O paradoxo oriundo dessa apropriação do tempo segundo esses valores abstratos pode ser uma explicação para a consolidação de ferramentas simbólicas como a linguagem. Linguagem é matemática. E apenas porque abstrata foi capaz de alguma tentativa de fundear uma realidade. Invenção. Portanto, se o princípio oriundo do paradoxo é a ficção, chegamos num ponto ontológico inconfessável por instituições despóticas: criar é princípio do pensamento. E se o princípio da criação pensa, ele não é princípio, senão paradoxo, abstração. Começando essa pequena fração simbólica, que reúne assertivo e negativo, pode-se usar uma metáfora matemática: os 180 graus. No paradoxo não há nada, do nada surge a linha de força: criamos a oposição complementar.


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A oposição mantém conexão mas pretende nas forças contrárias [< > >< <>>><<<> >< < > ] uma fuga do imbróglio da resposta ou da determinação. Ontologicamente ser e estar representam a mesma premissa, mas numa angulação diferente: 90 graus. O ser existe e o estar permanece. Um é história, o outro é presença. Ambos se interrompem numa conexão perpendicular. São as esquinas, quadraturas, quinas e cantos. O fluxo da história é interrompido pelo acontecimento. E vice-versa.


                                          ser
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                                                       |____________________________   estar
                                                       
A força que existe porque pensa e porque pensa existe. A existência e o pensamento: a memória do SER. E a força que permanece porque continua e continua porque permanece. A presença e o acontecimento: a matéria do SER, ESTAR. Henri Bergson deixa algumas pistas na atualidade para a divisão paradoxal que inventamos na relação corpo-mente. Apenas para simplificar, os dois jogos acima disponibilizam dois dos muitos caminhos possíveis na fissura da história formal. A morte abre a questão ao implicar uma relação estrita com o tempo a partir do espaço. Mas o que quero dizer com isso? A relação com o tempo pressupõe duração, exercícios de futurologia e passado, por exemplo. Relaciona-se ontologicamente com o ser. Enquanto a relação com o espaço pressupõe ocupação, matéria, estado: presença. Diria apenas que pensar poderia ser uma equação de velocidade. Por quanto tempo ocupo um espaço, ou quanto tempo eu levo para ocupá-lo? Quem se antecipa mais alcança o conhecimento matemático desejável, capaz de controlar mais espaço e matéria no tempo. Mas para suprir a necessidade de antecipação, aceleramos ou otimizamos o tempo, empregando força. Nem todos , é claro! hahahaha (precisamos brincar, porque ficará pesado)

Força se constitui da aceleração multiplicada pela matéria. Poderia da força apresentar algumas coleções humanas: empregá-la para tirar benefício sobre os demais. Ou, por exemplo, obrigar um ser a aplicar mais força sobre um determinado sentido, fazendo perdurar formas de ficção - pois é na insistência dos símbolos que doutrinamos o pensamento. A faca de dois gumes é autodeclarada na medida em que somos capazes de morrer e não matar, ou vice-versa. Ou aplicamos essa força sobre o corpo do outro, ou somos forçados à aplicá-la a nós mesmos. E exatamente pela previsão de que para otimizar tempo uma força deve ser empregada alcançamos  a universalização da morte enquanto causa. Esta ideia, ultrapassada em algumas proposições, mas levada ao limite em outras, alinha-se com um tipo de universo estanque ao prometer um ponto de partida: se eu te mato, tu morres, desaparece. Sim, a história humana está galgada na extinção e, ao que parece, cria estratégias para se consolidar assim. Seria isso oriundo de uma provocação da permanência em alguma forma de continuidade ou de um pensamento flagrante da existência no momento em ela irrompe de sua dúvida? Ser ou não ser, eis a questão materializada no século XVII. Veja bem, há tanto caminhos que desejam respostas, como há aqueles duvidosos, que estão pretensiosamente alicerçados na interrogação enquanto sistema retórico. Se perguntar não mata qual foi o momento em que passamos a empregar a força para afirmar o contrário? Por que as instituições patriarcais e ocidentais matam tanto? Talvez alguns sistemas herméticos da ciência, alheios às teorias construtivistas, insistam em forjar uma reconstituição histórica e culturalmente impossível do corpo humano, a partir de uma necessidade de provar a supremacia humana em relação às outras espécies, por meio da evolução selecionada "naturalmente". Não há nada mais abstrato e mirabolante. Conhecemos esse princípio matemático: forjar o passado. E a contagem, apesar de infinita. também é inacabada, pois é interrompida pela morte. Quando a morte assinala a fragmentação e desaparecimento da presença constituímos, na instabilidade, uma avaliação de longo prazo, visto que não há humanos que provem a existência objetiva deste prazo. E por dois motivos: tanto porque a experiência ontológica dos humanos é aquela deixada pelos mortos quanto pelo fato de que morremos, nós, também. Inventamos, por insegurança, o tempo da humanidade, no princípio da contagem, para lidar com a história dos mortos e a nossa perspectiva de morte. Ou seja, guardamos histórias de quem não pode mais refutá-las, assim como contamos a quem não tem garantias de lembrança dos fatos. A história, infelizmente, é dos vencedores. É, então, de quem emprega força. E se isso se chama de evolução natural, talvez esteja mais próxima de uma eugenia construída em anseios de pura raça humana do que, de fato, pela experiência coletiva que provê a ética do conhecimento histórico. Se existe probabilidade de esquecermos, pois as experiências da memória são falhas, as suposições de experiências coletivas são ainda mais complexas, ainda mais quando há interesses de emprego da força para sua universalização por meio de processos hierárquicos e abstratos. A complexidade ainda se afunda quando o acontecimento se dá como uma espécie de fenômeno generalizado, mas sobre o qual a morte se debruça ou se instala historicamente. O acontecimento se dá na presença, entretanto permanece em forma de relato ou experiência coletiva quando atravessa acordos e consensos. Se, por conta disto, sua constituição é política, organiza-se segundo interesses compartilhados. E a polis, sendo ela consensual, seria a partilha sensível necessária ou supérflua à morte, segundo as relações de consenso e dissenso entre cidadãos e não-cidadãos: entre quem tem direito de existir e quem não tem. Visualizando a partilha neste âmbito sabemos que a primeira se sobrepõe à segunda pelo emprego da força. E, se necessário, pela morte. Há várias perspectivas, entretanto pensar a morte enquanto acontecimento é sempre pensá-la como algo externo, apesar de esperado.

É na expectativa que se fundamentam, também, a curiosidade e o desejo. Nosso desejo pela morte se confunde, nesse momento, quando ele culmina em ter com o outro. As ameaças de morte aos não-cidadãos na polis grega se direcionaram no seguinte sentido: na direção do outro, do estrangeiro - do bárbaro. E a história ocidental repete a mesma farsa. Mas ter com o outro não é exclusividade da aniquilação, também é parte do sexo, das relações intempestuosas de alteridade. Por isso, sexo e morte talvez simbolizem a relação criativo-destrutiva da ontologia linguística que culmina nos desejos de Eros e Thanatos. Amor dói e amor mata. Se dói, ganha. Se mata, perde. E não há amor que caiba na dor da espera irrealizável do acontecimento, logo quando o consenso é parte de uma relação impossível para a morte, já que morremos sozinhos, apesar das companhias. A morte é um acontecimento, por excelência.

Se amor, morte e sexo se relacionam ontologicamente qual seria a experiência de corpo na consciência de uma impermanência? Fugir, pois na fuga o pensamento cria a existência.

Talvez seja nosso costume de evitar um fim, buscando-o. Talvez porque não sabemos como será, talvez porque ainda temos receio de presenciar esse acontecimento.

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