terça-feira, setembro 11, 2012

Fim da linha


Balança pra lá, balança pra cá. Uma cadeira range no embalo dele, agora que trata de ver a vida passar. Não está infeliz. A idade avançada garante o orgulho de muito o ter conhecido. Arrepende-se, é verdade. Noventa e quatro anos vividos, mas a maturidade não chegara. Ainda não conhecia, ainda não conhecia o muito.

Talvez as decisões não tivessem sido das melhores. Faltou gargalhar mais, apaixonar-se mais, chorar mais, xingar mais e amar muito mais. Falhou com a família, com os amigos e não abandonou o osso. Se abandonasse, haveria de não se culpar pelas falhas. Desde o início sabia que precisava ser mais de um. Coragem fora insuficiente para extremidades.

Ainda assim, o rosto enrugado estampa um sorriso satisfeito sob os fios brancos do bigode que restara. Netos zoadentos não o deixam se concentrar nos impropérios planejados a si mesmo. “Que se dane!”. É hora de ensiná-los a jogar dominó. Os arrependimentos palpitavam cada vez mais fracos na casa cheia. Observar os pequenos era a garantia de estar vivo após a morte.

“Éguas, vovô! Bati!”, mostrando as mãos vazias gritou realizado o mais saliente dos pirralhos. Tarefa difícil ganhar do avô. Risos e risos recheam aquele terraço arejado e cheio de plantas. O conforto do aconchego se mostra impagável.  Raios fracos anunciam o fim de tarde e da brincadeira. Aliás, é domingo e hora de irem embora.

Então a angústia resolve voltar à cachola do velho. Na minúscula idade as incertezas alimentaram o presente. Quando um dia as deixou jovem, não correu atrás do futuro. Andara para todos os lados. Ver o mundo até era muito bom. Andar era, sim, seu dom.

Só que queria sempre além. Cotovelos e joelhos fracos reclamam do não feito. Andar nunca fora o suficiente. Ignorara a energia que fluía dos pés à cabeça. Mais do que dom, havia um significado da existência a palpitar e ameaçar a permanência das coisas; da vida. 

Não poderia mais esconder, corpo e mente precisavam. Empurrou, empurrou e empurrou tudo aquilo por tanto tempo com a barriga, que admitir frustrava numa hora destas. O desperdício dos anos arregaçava hipocrisias; rasgava egos. Conviver mais de oitenta com a vontade nunca realizada nem de longe se aproximara do sentimento que agora denunciava o fim da linha. Não dá para aceitar a ideia de que o tempo acabara.

Faltou aquilo, meu velho. Faltou dançar.

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