Balança pra lá, balança pra cá. Uma cadeira range no embalo
dele, agora que trata de ver a vida passar. Não está infeliz. A idade
avançada garante o orgulho de muito o ter conhecido. Arrepende-se, é
verdade. Noventa e quatro anos vividos, mas a maturidade não chegara. Ainda não
conhecia, ainda não conhecia o muito.
Talvez as decisões não tivessem sido das melhores. Faltou gargalhar
mais, apaixonar-se mais, chorar mais, xingar mais e amar muito mais. Falhou com
a família, com os amigos e não abandonou o osso. Se abandonasse, haveria de não
se culpar pelas falhas. Desde o início sabia que precisava ser mais de um. Coragem
fora insuficiente para extremidades.
Ainda assim, o rosto enrugado estampa um sorriso
satisfeito sob os fios brancos do bigode que restara. Netos zoadentos não o
deixam se concentrar nos impropérios planejados a si mesmo. “Que se dane!”. É
hora de ensiná-los a jogar dominó. Os arrependimentos palpitavam cada vez mais
fracos na casa cheia. Observar os pequenos era a garantia de estar vivo após a
morte.
“Éguas, vovô! Bati!”, mostrando as mãos vazias gritou realizado
o mais saliente dos pirralhos. Tarefa difícil ganhar do avô. Risos e risos
recheam aquele terraço arejado e cheio de plantas. O conforto do aconchego se mostra impagável. Raios fracos anunciam o
fim de tarde e da brincadeira. Aliás, é domingo e hora de irem
embora.
Então a angústia resolve voltar à cachola do velho. Na
minúscula idade as incertezas alimentaram o presente. Quando um dia as deixou
jovem, não correu atrás do futuro. Andara para todos os lados. Ver o mundo até
era muito bom. Andar era, sim, seu dom.
Só que queria sempre além. Cotovelos e joelhos fracos reclamam do não feito. Andar nunca fora o suficiente. Ignorara a energia que fluía dos
pés à cabeça. Mais do que dom, havia um significado da existência a palpitar e
ameaçar a permanência das coisas; da vida.
Não poderia mais esconder, corpo e mente precisavam.
Empurrou, empurrou e empurrou tudo aquilo por tanto tempo com a barriga, que
admitir frustrava numa hora destas. O desperdício dos anos arregaçava hipocrisias;
rasgava egos. Conviver mais de oitenta com a vontade nunca realizada nem
de longe se aproximara do sentimento que agora denunciava o fim da linha. Não dá para aceitar a ideia
de que o tempo acabara.
Faltou aquilo, meu velho. Faltou dançar.
Faltou aquilo, meu velho. Faltou dançar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário