quarta-feira, outubro 03, 2012

Dos sebos, muito obrigado!

Velhos esquecidos, rasgados, encardidos. Às vezes lombada já não existe, as páginas mesmo se soltaram. Isso para nem falar nos rabiscos de caneta ou de lápis, que revelam muito de quem há lido.  Alguns poucos em bom estado parecem ter saído de livraria. Mas aí são casos raros e sem graça, os dos novinhos em folha. Verdadeiras folhas, amareladas ao passar de mão em mão, de mão em mão, escancaram o sentido original dos sebos.

Prateleiras entulhadas de papéis e poeira guardam além dos escritos. Livros de sebo carregam fragmentos de vida e experienciam. Vidas que passaram por ele e a ele se fundiram contam sempre histórias plurais. Além do que está fadado a narrar, rimar e blasfemar, o livro usado traz as divagações alheias que por ali ficaram. Energias e vestígios transbordam pelo trajeto de leitor. O caminho das pedras inquieta porque é coletivo e cumulativo.

Ao sebo o apego só é comparável ao de empréstimo nas bibliotecas (ou de amigos também). Ler o livro de outrem, ou que fora de outrem é acoplar em si histórias e impressões invisíveis, certos momentos tímidas, mas eternamente imagináveis. O gostoso da leitura avec tout é pensar que naquelas mesmas páginas outras lágrimas caíram, risos e bocejos espalharam saliva. Alguém em algum lugar se debruçou sobre o mesmo papel ancião e se fez parte da partilha subentendida. 

Assim como um autor nunca fala sozinho e traz consigo uma série de falantes, o leitor rato-de-sebo também não lê só. Atrás de si estão todos os que puseram mãos, olhos e alma a contemplar o emaranhado de letras e frases universais.

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