Prateleiras entulhadas de papéis e poeira guardam além dos
escritos. Livros de sebo carregam fragmentos de vida e experienciam. Vidas que passaram por ele e a ele se fundiram contam
sempre histórias plurais. Além do que está fadado a narrar, rimar e blasfemar,
o livro usado traz as divagações alheias que por ali ficaram. Energias e
vestígios transbordam pelo trajeto de leitor. O caminho das pedras inquieta
porque é coletivo e cumulativo.
Ao sebo o apego só é comparável ao de empréstimo nas bibliotecas
(ou de amigos também). Ler o livro de outrem, ou que fora de outrem é acoplar
em si histórias e impressões invisíveis, certos momentos tímidas, mas eternamente imagináveis. O gostoso da leitura avec tout é pensar que naquelas mesmas
páginas outras lágrimas caíram, risos e bocejos espalharam saliva. Alguém em
algum lugar se debruçou sobre o mesmo papel ancião e se fez parte da partilha
subentendida.
Assim como um autor nunca fala sozinho e traz consigo uma
série de falantes, o leitor rato-de-sebo
também não lê só. Atrás de si estão todos os que puseram mãos, olhos e alma a
contemplar o emaranhado de letras e frases universais.
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