segunda-feira, outubro 01, 2012

Na lírica rua-porta


"Eu vi uma barata na careca do vovô
Assim que ela me viu
Bateu asas e voou
Seu Joaquim-quim-quim
Da perna torta-ta
Dançando valsa-sa
Com a Maricota-ta."

Uma roda formada entoava as cantigas. Crianças soltas, outras de mãos dadas, rodopiavam sem parar. Professores de olho a incentivar sutis. Felizes momentos do olho de vidro e nariz de pica-pau, do sapo na beira do rio e fulaninho só de cueca-ca. Mas catarse reservavam mesmo ao pau no gato-to e à dona Chica, que se admirou do berro que dera o coitado. 

Pés pequenos ciscavam no chão, acelerando os 360 graus quanto mais empolgados. Alguns gritinhos entusiasmados até o fim da força. Queriam mesmo repetir a dose. Fosse à roda, sobre a corda, brincando de elástico, qualquer oportunidade. Vozes agudas embalavam o sorriso das almas nanicas, mudavam a roda de direção. Ninguém pretendia parar até o primeiro anuncio do(c)ente: “acabou, hora de voltar pra sala”.

“Ah, não”, arriscavam-se os mais salientes. Cabisbaixo todo mundo ia. A desculpa, na década de 90, era de descontar a vontade quando se chegasse a casa. Na vizinhança, a rua era porta da roda. Almoço, sesta... lá vinham pedidos emocionados. Aos coleguinhas recorriam os que a liberdade conquistavam. Aquele estreito espaço virava e enchia-se de creche, roda, corda; elástico. Cantavam para aquecer. Melhor o que viria depois.

Dos céus, viam-se pontinhos correndo loucos pelo trecho de asfalto. Dos casebres eles se aproximavam em grupos, triscavam n’algo e escondiam-se dos escândalos na vizinhança. Gritaria audível a quilômetros de distância. Mais berros e todo mundo ficava comportado. Hora de mudar a brincadeira. Os pés alvinhos perdiam dignidade do banho de mãe, esfolados no negro piso de rua. Pontinhos minúsculos eles... entrecruzavam-se na felicidade do pega-pega, pique-esconde, queimada. Ao finito do dia, até o sol desaparecer.

Voltavam exaustos para os retângulos cobertos por telhas de cerâmica. Entravam quando das luzes acesas, a transbordar por quadrados envidraçados que teimam chamar janelas. Banhados e alimentados iam todos os pontinhos dormir. Antes de fechar os olhos, estavam conscientes do imprescindível nas cantorias. Não havia nada melhor que uma trilha sonora capaz de abrir a porta da rua em ciclos de tardes livres.

Nenhum comentário:

Postar um comentário