segunda-feira, abril 15, 2013

Zero à esquerda

Desde sempre ouvi, bastava não dar certo. O errado, mal feito, o insucesso, talvez até o fracasso. Todos eram sublimes artefatos do teu resumo conotativo. Foi apenas velho como agora estou que os sentidos apontaram a denotação do indicativo expresso.

Se passamos à esquerda do zero, o negativo se repete, aflora infinitamente. Os números inteiros abrem as portas do mundo inferior. Descobrir que, para além do zero, há mais do que uma indiferença, congela. São as potências da baixa temperatura, do gelado; do zero absoluto. Se o zero soa neutro, o negativo soa insignificância, rebaixamento.

A modéstia se inclui aí, numa negação da qualidade. Seus procedimentos minam a neutralidade para a consolidação do fétido prazer de zombar do eu; de incapacitá-lo. Mas também funcionam enquanto estratégia pura, retórica, para que não cobrem ou pensem do zero à esquerda o que ele não será nunca; positividade.

A insurreição do zero à esquerda gera condolência quando chegamos ao -1 e, daí, não paramos de contar. Uma redução que reprime, reduz, não exclui. Outras interpretações [ao menos é o que armazena o yahoo respostas] da velha expressão lazarenta, geram significados alarmantes, de um sentimento ainda mais assustador.

Esse fenômeno se apresenta como o vazio. Vi dizer que tal atitude canhota é a do numeral que, sem necessidade, antecede todos os algarismos (e, ao mesmo tempo, nenhum deles). Um estado de presença e ausência que não tem intenção. Quando o zero está antes do 9, do 4, ou do 13, ele é o mesmo que nada [09, 04, 013]. E sua aparência se torna invisível, sem diferença alguma para cálculos e demais procedimentos matemáticos. Um zero como instância numeral suprimível e inexistente.

Entre os dois significados, prefiro o primeiro, que brotou curioso de um comentário aleatório. Ao passo que entendemos a negatividade, esta produz reação. Se o zero à esquerda se tornar o nada, ele nada será, nem mesmo a conotação que abriu este texto.

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