Se passamos à esquerda do zero, o negativo se repete,
aflora infinitamente. Os números inteiros abrem as portas do mundo inferior. Descobrir
que, para além do zero, há mais do que uma indiferença, congela. São as
potências da baixa temperatura, do gelado; do zero absoluto. Se o zero soa neutro,
o negativo soa insignificância, rebaixamento.
A modéstia se inclui aí, numa negação da qualidade. Seus
procedimentos minam a neutralidade para a consolidação do fétido prazer de
zombar do eu; de incapacitá-lo. Mas também funcionam enquanto estratégia pura,
retórica, para que não cobrem ou pensem do zero à esquerda o que ele não será nunca;
positividade.
A insurreição do zero à esquerda gera
condolência quando chegamos ao -1 e, daí, não paramos de contar. Uma redução
que reprime, reduz, não exclui. Outras interpretações [ao menos é o que
armazena o yahoo respostas] da velha
expressão lazarenta, geram significados alarmantes, de um sentimento ainda mais
assustador.
Esse fenômeno se apresenta como o vazio. Vi dizer que tal atitude canhota é a do numeral que, sem necessidade, antecede todos os algarismos (e, ao mesmo tempo, nenhum deles). Um
estado de presença e ausência que não tem intenção. Quando o zero está antes
do 9, do 4, ou do 13, ele é o mesmo que nada [09, 04, 013]. E sua aparência se torna invisível, sem diferença alguma para cálculos e demais procedimentos matemáticos.
Um zero como instância numeral suprimível e inexistente.
Entre os dois significados, prefiro o primeiro, que brotou curioso
de um comentário aleatório. Ao passo que entendemos a negatividade,
esta produz reação. Se o zero à esquerda se tornar o nada, ele nada será, nem
mesmo a conotação que abriu este texto.
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