terça-feira, maio 14, 2013

Companhia

Gostava de criar obrigações quando, na verdade, estava cansado de convivência. Gostava de fingir ser cego para não ficar papeando. Achou que fosse doença. Sentiu-se vil. Ouvia música no último volume para não escutar as alegres vozes ao redor. Será que havia cansado dos humanos, enfim?

- Ora bolas, sou um humano.

Por mais que falasse com tanta gente num dia só, a conversa não mudava. Repetia cumprimentos, palavras e nem as frases escapavam do ciclo. Talvez não se chateasse tanto com a rotina, mas mais consigo mesmo. Alguma sensação má tomava o corpo, os olhos. Ah, os olhos... como ardiam. Ardiam de raiva, de choro, de desapontamento.

Faltava alguma coisa e não sabia dizer o quê. Tinha pouco tempo para pensar, as pessoas estavam sempre passando, passando e passando. Algumas vezes também passava por elas e as figurinhas repetidas iam se acumulando no caminho. Os mesmos cumprimentos, as mesmas caras.

Queria amor, mas não podia oferecê-lo. Não tinha esse dom e admirava os super dotados. Os amigos desdiziam o que alguns de fora suspeitavam: aquele era estéril feito um ventre partido. As companhias que lhe passavam durante o dia significavam tão pouco quanto sua própria vida. Na verdade, significavam bastante, mas não havia parâmetros de comparação. Não conseguia medir os sentimentos, parecia oco dentro do peito.

Ficou à procura dos responsáveis e restou apenas ele mesmo, de frente ao espelho, nu, sem ninguém para contemplar a narcísica face. Talvez mais uma culpada, aquela cidade em solidão. Imaginou outros culpados, nada mais forte do que ali dentro acusava.

Algo incomum preenchia o corpo nu. Uma gratuidade de pensamento; um apego por todos os passantes, do lado de fora, mundo afora. Deseja muito menos a passagem deles do que a companhia, estava sedento por pessoas sem interesses, por verdade psicológica. Esperava uma entrega que poderia devolver, até que lembrou os infortúnios. Foram muitas as vezes quando sacrificou o calejado tempo para desfrutar dessas presenças. Agora perdera a paciência.

Cansado dos abandonos e de abandonar, largou tudo. Foi ter com as estrelas.

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