Logo que deixou os pratos nas mãos da cozinheira sorridente, voltou-se para o colega sentado na larga mesa. Conversava com algum desconhecido. Passando por eles, imaginou que não se constrangeria ao falar com o rapaz. No impulso do momento, tocou-lhe o ombro. "E aí, ...agão!". A escrota resposta que se seguiu, com uma indiferente virada de pescoço, desapontou o vibrante entregador de pratos.
Contemplou por alguns instantes aquela apática reação. A paralisia do tempo durou até virar a cabeça na direção oposta. Foi tudo tão rápido que, mal se virou, o esbarrão com um estudante que ali passava se tornara inevitável. Booom! tliiim! As louças quase caíram das mãos do desconhecido. Por muito pouco a maçã que segurava escapuliu pelos dedos. Sorte tê-la pegado no ar.
Sem pedidos de desculpas, afastou-se envergonhado do estranho que lhe fitava curioso. Segundos depois, o calor do constrangimento havia passado, a preocupação, não. Por um cumprimento não respondido, esbarrara em alguém inocente, talvez boa gente, e não pedira desculpas! A maçã que antes pendia numa das mãos, agora era destroçada pela batida quase metálica dos dentes.
A apática reação do colega fora demais, extrapolara a conta. Tanta indiferença martelou na cabeça até que o dia enfim acabasse. Um céu já escuro dialogava com os prantos d'alma, a duvidar:
-Até quando serei gentil?
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