Quando mais jovem, costumava se perguntar junto às amigas quantos
seres humanos não tiveram a oportunidade de existir. Crianças que não nasceram
porque acabaram-se os namoros, os casamentos, o amor... bye bye, sexo casual. Crianças que também
deixaram de ser adotadas, ora essa! As oportunidades perdidas se acumulavam num
mundo de crianças não nascidas, outras desconhecidas. Instantes relapsos que
deixavam escapar as possibilidades, possibilidades de crianças.
Algumas vezes imaginava quantos filhos havia perdido nesse meio
tempo, quantas crianças deixara de botar no mundo pelo simples medo de se
arriscar, de ir adiante. O beijo... ah, quanto um beijo poderia mudar a vida,
gerar novas trajetórias, dar às crianças luz e conhecimento.
Ela não esconde. Acha essa uma forma ainda mais cruel de olhar o
real. Sabe que a natureza, por si só, mata milhares de possibilidades a cada
ejaculação e menstruação. Sabe também que muitas mães desistem da maternidade,
mesmo quando as crianças lhe chutavam carinhosamente o ventre todos os dias
durante a gravidez!
É doloroso pensar nas almas que não surgiram, nas pessoas que
deixamos de conhecer. A velha mulher ainda não entendeu por que tanto mistério,
que negócio é esse de seleção natural. Bulhufas inexplicáveis, inexoráveis.
Nada explica. Também não consegue ser hipócrita. Acha o milagre da vida
maravilhoso, mas foram poucas as vezes em que, por mais milagre que fosse, não
pensara nas vidas inexistentes. Sombras... serão elas? Luz... serás tu?
As vidas que ficaram nas possibilidades, os desconhecidos que se
mantiveram nos orfanatos ainda afligem os cafés da manhã da velha mulher. Paralisada,
ela se mantém no êxtase de sentir. Não engravida, não adota. Não consegue
eleger um alguém quando imagina a perda de muitos outros alguéns. Sente-se um
monstro por não saber escolher, por não poder escolher.
Aquela mulher sempre ouvira o quão necessárias são as decisões da
vida. Apenas ouvira, nunca conseguiu toma-las, não entendeu. Toda hora são alguéns que passam, alguéns
interessantes, alguéns desacreditados... possíveis pais, mães, possíveis
filhos, filhas. Mas que DROGA! Ela vê fantasmas por todos os lugares. Os
fantasmas das possibilidades infinitas da vida.
Amedrontada, segura-se na solidão. Não acredita muito em destino. Guarda
consigo o medo de se tornar apenas uma possibilidade na vida das pessoas. Por
que, logo com ela, deu certo vir ao mundo? Só podia pensar na sorte, no
universo, em Deus, qualquer que fosse o nome daquilo.
O único consolo que lhe restou foram as almas. Se de fato
existirem, a teoria das possibilidades perderia importância. Afinal, o
nascimento seria um mero encontro com o corpo... mas não tem certeza. Aliás,
não tem certeza de nada.
Enquanto a indecisão acompanha as mão envelhecidas no rápido café
da manhã, a mulher vai criando os seus fantasmas. Ela ainda é a única que vê as crianças não
nascidas, aquelas que ninguém conheceu.
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