domingo, maio 19, 2013

Filhos não nascidos

Pensara nas crianças que ainda não tivera. Quantas oportunidades de fazê-las deixou passar? Acumulando relacionamentos, caras, convivas, acabou ficando para depois. E esse depois nunca chegou. Ela nota as mãos já calejadas do tempo, ranzinzas, franzinas. É, a velhice chegou.

Quando mais jovem, costumava se perguntar junto às amigas quantos seres humanos não tiveram a oportunidade de existir. Crianças que não nasceram porque acabaram-se os namoros, os casamentos, o amor... bye bye, sexo casual. Crianças que também deixaram de ser adotadas, ora essa! As oportunidades perdidas se acumulavam num mundo de crianças não nascidas, outras desconhecidas. Instantes relapsos que deixavam escapar as possibilidades, possibilidades de crianças. 

Algumas vezes imaginava quantos filhos havia perdido nesse meio tempo, quantas crianças deixara de botar no mundo pelo simples medo de se arriscar, de ir adiante. O beijo... ah, quanto um beijo poderia mudar a vida, gerar novas trajetórias, dar às crianças luz e conhecimento.

Ela não esconde. Acha essa uma forma ainda mais cruel de olhar o real. Sabe que a natureza, por si só, mata milhares de possibilidades a cada ejaculação e menstruação. Sabe também que muitas mães desistem da maternidade, mesmo quando as crianças lhe chutavam carinhosamente o ventre todos os dias durante a gravidez!

É doloroso pensar nas almas que não surgiram, nas pessoas que deixamos de conhecer. A velha mulher ainda não entendeu por que tanto mistério, que negócio é esse de seleção natural. Bulhufas inexplicáveis, inexoráveis. Nada explica. Também não consegue ser hipócrita. Acha o milagre da vida maravilhoso, mas foram poucas as vezes em que, por mais milagre que fosse, não pensara nas vidas inexistentes. Sombras... serão elas? Luz... serás tu?

As vidas que ficaram nas possibilidades, os desconhecidos que se mantiveram nos orfanatos ainda afligem os cafés da manhã da velha mulher. Paralisada, ela se mantém no êxtase de sentir. Não engravida, não adota. Não consegue eleger um alguém quando imagina a perda de muitos outros alguéns. Sente-se um monstro por não saber escolher, por não poder escolher.

Aquela mulher sempre ouvira o quão necessárias são as decisões da vida. Apenas ouvira, nunca conseguiu toma-las, não entendeu.  Toda hora são alguéns que passam, alguéns interessantes, alguéns desacreditados... possíveis pais, mães, possíveis filhos, filhas. Mas que DROGA! Ela vê fantasmas por todos os lugares. Os fantasmas das possibilidades infinitas da vida.

Amedrontada, segura-se na solidão. Não acredita muito em destino. Guarda consigo o medo de se tornar apenas uma possibilidade na vida das pessoas. Por que, logo com ela, deu certo vir ao mundo? Só podia pensar na sorte, no universo, em Deus, qualquer que fosse o nome daquilo.

O único consolo que lhe restou foram as almas. Se de fato existirem, a teoria das possibilidades perderia importância. Afinal, o nascimento seria um mero encontro com o corpo... mas não tem certeza. Aliás, não tem certeza de nada.

Enquanto a indecisão acompanha as mão envelhecidas no rápido café da manhã, a mulher vai criando os seus fantasmas. Ela ainda é a única que vê as crianças não nascidas, aquelas que ninguém conheceu.

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