Esgotado pelas impressões do mundo, afundou tudo no travesseiro. A cabeça já comprimida pelo pano necessitava permanecer ali, quieta e anônima. Tapado pelo travesseiro, um dos olhos se escondeu da vida. O outro, ainda que vivo, fitava o vazio na parede. Algum desejo vil de morte não seria exagero. Algo dentro de si gritava por sentido, gritava inaudível. Mas não havia sentidos no horizonte que se formava dentro do quarto escuro.
Pretendia virar monstro, ser esquecido. Talvez um esquecimento de si próprio, num adormecer eterno. Mais que a vida, o sonho parecia atraente. Virou-se algumas vezes e o sono não vinha, o sonho também não. Desistiu, restava-lhe fitar o vazio da penumbra sobre as paredes naquele ensolarado final de semana, enquanto os pais levavam os filhos para passear e os avós estavam na porta de casa, a conversar sobre a vida alheia.
Mexeu a cabeça sobre o travesseiro e ficou na posição fetal. Alguma luz intrometia-se pelo basculante do banheiro e iluminava o corpo encolhido. Do angulo de um feto conseguia ver o braço cheio de veias e, mais adiante, as pernas meio cobertas pelo lençol. Parecia um vestido de moça sobre as coxas cabeludas.
Atrás do corpo conseguia ver luz. O dia lá fora era azul e completo. Não precisava de nada nem ninguém para ser belo. A perfeição e infinitude da tarde o persuadiu a levantar da cama. Levantou sem perspectivas, havia afundado todas no colchão.
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