quinta-feira, maio 23, 2013

Marginália

Livros novos, com cheiro de papel virgem. Livros velhos, sujos dos resíduos que a vida deixou. Em ambos os casos a paixão pela leitura se concretiza na intervenção. Linhas de palavras, palavras, símbolos e imaginação não são nada sem o leitor. As imagens que dos signos partem podem ir muito além da cachola. Ganham o papel.

E elas também viram letras
letras que formam palavras
palavras que formam períodos
períodos que formam frases
frases perdidas, perdidas no intento de significar!

Na empolgação do instante os rabiscos são insuficientes. As imagens, repetições e o que mais seja querem significar junto às páginas. Sublinhar, destacar é muito pouco para quem quer fazer parte da história. É o processo de reconstrução da obra, que ganha tons de leitor interventor. Autor também sou eu, que reescrevo, ressignifico o dito pelo não dito. Transformo em parte do livro o que consta na vida, na cachola.

Marginália tem um pé no latino marginalia, cujo significado é "coisas escritas na margem". Associada ao manuscrito medieval, o termo que traduz as palavras na "periferia" das páginas se refere aos juízos do leitor, significando imagens e palavras. São nossas pequenas anotações de todos os dias, inscritas no limite da existência literária. O ser ou o não ser do leitor.

Macabros sons escapam
do livro mudo
Cenas de um alguém,
lugar desconhecido

Imaginário interpreta-se
desejo de ir além
conversas no papel
se fazem à margem


Identificação, lembrança. Às vezes indiferença, insignificância. Os motivos da marginália são inconsequentes como quem os escreve. E não digo aqui colar coisas escritas, manter o papel do livro intacto. O verdadeiro marginal concretiza suas impressões nas folhas amareladas dos sebos , ou nas novas e assépticas páginas das livrarias. Buscam todos o mesmo propósito ruidoso, a marca.

Ruídos que se perpetuam enquanto dura o papel. Livros perdidos e vendidos. A marginália chega aos outros como pedaços de um alguém esquecido, esquecido do que de si foi perpetuado nas páginas usadas e sujas de mortas células. Dedicatórias também ganham tons marginais. Estão na frente, nas costas e nos cantos dos livros. Algumas dispersas e enigmáticas, conversas com próximo leitor.

O universo marginal é a grande metáfora dos ciclos de leitura e debate, das vidas entrecortadas pelos livros que circulam. São o apoio de quem estuda, a diversão de quem graceja com as palavras lidas. E não só de palavras se faz a literatura marginal e quotidiana. Os símbolos ganham conotações diversas. Dizem como está a cabeça de quem passou aleatório ou disperso por aquelas páginas. Podem ser um mero e desconexo adendo, a perfurar e acrescentar sentidos inválidos e moribundos. Também podem ser clã do mistério, insondáveis sentidos da percepção literária.

Desenho em ti
pelo olhar perdido
à mão dançante
vinga um universo

Casta dimensão
de não-palavras
do intento desprezo
pelos estapafúrdios dizeres

Risco por entre parágrafos
a tua máscara enfadonha
tal como vi nas letras
um relâmpago de signos marginais.

Canetas que desenham estrelas de cinco pontas também dizem alguma coisa.


E um instante de relapso sentido. Concordou com as palavras e acrescentou seu universo.




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