Nas palavras de Poe faço minha a ânsia de não conseguir ceder a tão tentador intento. O conflito de viver nas linhas tortas, mas teimosamente retas na vista de outrem, acumula o estado de abstenção, adiamento e paralisia. Sabe-se perverso porque o dito cujo desregra todo o bem-estar consensual dos dias corridos.
Bagunças no bem-estar consolidam estéticas da diferença. O perverso é fruto do mal, do diabólico estado digladiador. As duas pessoas dentro de uma brigam, apossam-se uma da outra. Ruindade é a própria indecisão. Agora, mais do que nunca, não é hora de parar confuso. O movimento dita as regras da locomotiva. E não decida por si. É infame decisão optar pelo ócio oficioso.
Nas redações de outrora, inquieto transpirava aos borbotões. A fumaça, as unhas - tudo era consumível na boca incessante apetrecho do oculto. Todo ele, centímetro por centímetro, escondia reais intenções. "Vambora", disse-lhe o editor fuinha ao lado. "Ao texto não dou mais um segundo", esgotava em palavras o prazo consciente em fim de linha. Parada momentos antes, a máquina de escrever pipocava em dedadas agudas. Desespero emergente, gota a gota de suor, consumia neurônios adquiridos horas atrás, no único instante em que o demônio lhe possuíra por completo.
Sono profundo era o abrigo de todo o ímpeto que partia de não sei quem. A cabeça estava toda lá, na cama indiferente, quando, em sobressalto, ouvira desgostoso os primeiros gritos de pressa ecoarem pelo corredor do escritório morto. Procrastinou o quanto pode, até a desistência. A obrigação se debatia pelas paredes quando enfim terminou. Em cada uma das palavras no papel via algo que a perversa vontade teimava em não permitir, adeus reconhecimento. Era o aceite; a carta branca da desajeitada redenção.
Uma vez livre das obrigações, voltou a casa. Agredido o dia inteiro não lhe sobrara sequer um pedaço do demônio. Restava a raiva a descontar no lar e em fulanos de seu amor. Aquela perversa vontade da desistência, da fugitiva corrida, foi-se; esgotou-se junto às ocultações de cadáver. "Até quando", sussurrou encolhido sob o chuveiro. A verdade é que queria gritar banheiro afora.
Demoníaca perversidade, pena ires atiçar o âmago dos insossos cinismos. Quando vais embora deixa-lhe ao léu, choroso. Em suma, tua perversão são apenas as asas que, negadas, vão se dissipando em sequência monotonia. Ainda não entendeste que cabe a ti a manutenção do estado detestável de adiamento ou o orgasmo da negação?
Perverso será eterno neste assassínio do consenso idolatrado. No nordeste brasileiro é o famoso "ou dá, ou desce". Desce ao inferno. Em contraste, no trajeto glorioso da apatia entregue, contínuas escravidões dos sentidos digladiam com os espocos de pensamento. Há tu de seres possuído pelo demônio apenas no dia da bagunça. Se e somente se quando a decisão ultrapassar a plena exigência do benevolente.
Compromisso cerrado, encerra-se em si mesmo. Despede-se apagado no tempo. Mas o tempo, esse, sim, continua. Conseguirás tu não dar ouvidos à obrigação para alcançar o inferno procrastinante? O relógio que tilinta na sala não deixará esquecer-te.
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